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  >  Do meu ponto de vista   >  Amizade, ainda existe?

Amizades de uma vez por ano

Como todo mundo, eu tenho aqueles momentos em que fico entediada e começo a rolar o Instagram sem pensar muito. Foi assim que me deparei com um monólogo sobre amizade — e ele me atingiu de um jeito inesperado

 

Existe um tipo de encerramento que não vem acompanhado de briga, discussão ou palavras duras. Ele acontece devagar, no silêncio. Na falta de iniciativa. Na conversa que nunca mais começou. No convite que não veio. Na mensagem que ficou para depois — e nunca foi enviada. É o fim que acontece por ausência de cuidado.

Amizades também precisam ser cultivadas. Não exigem presença constante nem cobranças, mas pedem interesse verdadeiro. Um “como você está?” honesto. Um encontro simples. Uma troca mínima que mantém o vínculo vivo. Quando isso deixa de existir — principalmente quando parte só de um lado — a amizade não termina oficialmente, mas deixa de se sustentar.

Com o tempo, a vida segue, as rotinas mudam, e o laço vai se enfraquecendo. Não necessariamente por falta de afeto, mas por falta de escolha. Porque amizade também é decisão. É optar por manter, por não deixar que vire apenas memória.

E então, em algum momento, a pessoa reaparece. Não para retomar a conexão, não para saber de você, mas para pedir algo. Como se o vínculo estivesse intacto, à disposição. Só que não está. Amizade não fica em espera. Ela existe no movimento. Sem movimento, não há laço.

Dói reconhecer isso. Dói admitir que algo importante se perdeu no caminho. Mas também liberta entender que você não deve lealdade a relações que não foram nutridas. Distância não é frieza — é consequência.

Talvez amadurecer seja aceitar que nem toda história termina em conflito. Algumas terminam no silêncio.

E fica a reflexão: você consegue aceitar quando uma amizade acaba por falta de cuidado… ou ainda se sente culpado por tentar sustentar algo que já não existia mais?”

Créditos: Valentina Bulc 

Ela arrasa demais nas suas reflexões

A fala era simples: amizade não é unilateral. Não é só uma pessoa que mantém. Não é só uma pessoa que puxa assunto. Não é só uma pessoa que quer.

E aquilo foi desconfortavelmente familiar.

Eu sempre fui a pessoa que quer manter. Que gosta de cultivar. Que sente uma conexão e pensa: “quero essa pessoa na minha vida por muito tempo”. Talvez até por décadas. Talvez até para sempre.

Mas, na terapia, ouvi algo que ficou ecoando em mim: nem todas as pessoas que entram na sua vida vieram para ficar. Algumas são de passagem. Algumas são de fase.

E aceitar isso dói mais do que parece.

Quando você quer 40 anos… e a outra pessoa quer um momento

Tenho uma amizade que virou quase um ritual anual. A gente se liga no aniversário. Todo ano. Sem falhar.

Antigamente, eram ligações longas. Cartas. Trocas reais.

Hoje, três frases no WhatsApp:
“Parabéns. Muitos anos de vida.”
E silêncio.

Eu comecei a me perguntar: eu existo para essa pessoa uma vez por ano?

Sim, ela para o dia dela para me escrever. Eu reconheço isso. Mas e os outros 364 dias?

E se eu não estiver aqui no próximo aniversário?

Talvez seja dramático pensar assim. Talvez seja exagero. Mas é um pensamento que vem.

O peso de sempre iniciar

Em outras amizades, percebo o mesmo padrão: sou quase sempre eu quem chama. Eu quem propõe café. Eu quem sugere encontro. Eu quem atravessa a cidade.

Quando a pessoa chama, muitas vezes é de última hora. Sempre na casa dela. Eu que pego metrô, ônibus, duas horas de deslocamento. E raramente há a mesma disposição em vir até mim.

Eu comecei a me perguntar se estava confundindo esforço com carinho.

Porque reciprocidade não é só sentimento — é também logística, tempo, intenção.

Entre cobrar e aceitar

Todo mundo diz que amizade não se cobra.

Eu concordo.

Mas amizade que só existe porque uma pessoa insiste também não é saudável.

Então eu decidi fazer algo difícil: deixar ir.

Não com raiva.
Não como punição.
Mas como um gesto de preservação.

Estou tentando aprender a entregar na mesma medida que recebo. Nem mais, nem menos.

Talvez isso seja amadurecer.

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